Viciado em Cinema e TV

quinta-feira, outubro 27, 2005

Crítica: Alice





Se o cinema português é por vezes olhado com desconfiança, é possível que este filme venha despertar algum sentimento de valorização do "produto caseiro". Não ficando aquém de qualquer filme estrangeiro, "Alice" consegue uma narrativa fluente, emotiva para o espectador e funde-se numa expressão que não precisa de palavras explícitas para ser compreendida. Em qualquer lugar do mundo este filme seria sentido da mesma forma, devido ao modo como é conduzido, aos excelentes desempenhos de Nuno Lopes e Beatriz Batarda, e ao conceito de "perda" que o filme expõe com extrema intensidade.

O mais curioso é notar o talento do realizador, Marco Martins, que no seu primeiro filme consegue imediatamente a valorização pelos seus pares, ganhando em Cannes o prémio Regards Jeunes para Melhor Filme na Quinzena dos Realizadores. Pessoalmente, anseio por novos projectos deste argumentista e realizador, temendo que devido a políticas no seio dos subsídios fornecidos (leia-se ICAM), fique perdido por falta de verbas, como acontece a muitos jovens realizadores portugueses.

"Alice" descreve os períodos após o desaparecimento da filha do casal Mário e Luísa (Nuno Lopes e Beatriz Batarda), cujo nome dá título ao filme. Enquanto a mãe desespera pela impotência que sente, intensificada pela solidão que tem por ficar em casa aguardando um telefonema que dê notícias, o pai desencadeia um processo de vigia pela cidade, colocando câmeras pelo trajecto que fez com a filha no dia em que a mesma desapareceu. Nesta rotina obsessiva, ele crê que a filha irá voltar a passar um dia por esses locais e aí ele poderá registar esse momento. É este processo "religioso" que aparentemente evita que atinja a loucura e desespero, mas que simplesmente atenua a demonstração do seu sofrimento.

"Alice" é um filme que fala sobre o sofrimento, incapacidades de resposta e de obsessão. Podendo ser para alguns um pouco depressivo, apresenta nas sua fotografia uma Lisboa que por nós é notada por vezes: real, escura, rápida, cinzenta. É espantoso que até a Rua Augusta e o Marquês de Pombal são retratados com um local com outro, em vez de serem o "centro da imagem". Quanto à banda sonora, cumpre perfeitamente o seu objectivo, criando um sentimento de melancolia e tristeza que ajuda a "abraçar" o argumento.

Provavelmente um dos melhores filmes portugueses, senão o melhor filme Português desta Década, "Alice" não pode ser perdido, representando a esperança que ainda poderemos ter com o cinema português.

5 estrelas
Excelente.

Nuno Cargaleiro @ 15:10


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